A história que o Robinho contou na the deal lab #1 é muito legal, daquelas que sempre voltam à mesa quando a gente se encontra. Nos conhecemos há ~10 anos num churrasco na minha casa, apresentados pelo Alemão. Naquele dia, falamos bastante da Chaordic (onde ele era head de data science) e dos 1os passos da Joga.

Anos depois, fomos assistir ao Palmeiras logo depois dele concluir a transação com a Yalo. A Joga não tinha nada a ver com a compradora, mas o Robinho e time tinham - e muito. Ali ficou claro o deal: foi um acquihire.

O que é um acquihire?

Acquihire é quando uma empresa compra a outra principalmente pelo time, não pelo negócio. “Acquire” + “Hire". Para os boleiros de plantão: é comprar o passe dos jogadores.

No caso da Joga:

  • A Yalo é uma empresa que desenvolve agentes de AI e soluções de chat para grandes empresas

  • A Joga era uma startup de tecnologia para performance esportiva + gestão de clubes / escolas

  • O encaixe estava nas pessoas: Robinho, talento ímpar em dados e AI, tema mega quente para qualquer empresa tech + time de engenheiros e produteiros super entrosado.

O Robinho entendeu que um time talentoso poderia ser aproveitado e costurou uma saída muito elegante. Apesar de acquihire ser o tema principal da discussão dessa edição, queria falar sobre o elemento anterior (se valia à pena ou não continuar com o negócio).

Off-topic, mas nem tanto: os sinais de que talvez você devesse considerar colocar seu negócio à venda

Como eu vendo minha empresa? É uma pergunta que eu recebo com frequência e só consigo responder com mais perguntas:

  • por que você começou a pensar em vender?

  • desde quando?

  • o que você não aceita em hipótese alguma?

  • como você imagina que sua vida vai mudar?

  • o que muda para seus sócios / clientes / fornecedores / colaboradores se você vender?

  • e por aí vai…

As respostas variam, mas quase sempre eu consigo encaixar em alguma dessas categorias:

  1. quero resolver a vida financeiramente

  2. estou cansado / esgotado / desanimado / não está alinhado com o que quero

  3. o negócio estagnou / depois que x aconteceu, piorou / existe um risco grande de x acontecer

  4. eu e meus sócios não concordamos com o presente + futuro

  5. nunca pensei em vender, mas a empresa X me procurou e agora estou considerando

Quando queremos vender um bem relevante (como um carro ou casa), nos preparamos antes de colocar à venda:
- você considera arrumar aquela batidinha ou aquele barulho. Pelo menos, a próxima lavagem é a premium
- você não deixa a casa bagunçada para tirar as fotos do anúncio do seu apto / casa. Pelo contrário: faz uma boa faxina, arruma a decoração, aproveita para tirar fotos em um dia de sol (e até contrata um fotógrafo)

Na venda da empresa, apesar de ser a mesma ideia, é muito mais complexo. E em um acquihire, tem um ponto crítico: que tipo de talento o comprador precisa e o que ele espera de resultado.

Entendendo a cabeça do comprador

Uma empresa tem n motivos para comprar a outra. Pode querer aumentar seu market share, adicionar um novo produto ao portfolio, comprar a propriedade intelectual ou outros ativos que ela ainda não tem. Por que uma empresa gastaria dinheiro comprando o passe de alguém se ela pode contratar “de graça”? Listo 4 principais motivações:

  1. Talentos raros simplesmente não estão disponíveis para trocar de emprego. É difícil para nós, meros mortais, entender. Mas p/ quem é considerado como um talento muito fora de série, o mercado opera em outra lógica (como no caso desse cara que a Meta pagou U$250M)

  2. Montar um time novo do zero é caro e lento. Quanto tempo meu RH leva para contratar pessoas com o mesmo nível de competência / habilidades? Não é incomum que contratações orgânicas também tenham custos como hiring bonus ou mesmo um pacote diferenciado de ações.

  3. Entrosar é ainda mais lento: quanto tempo as pessoas levam para aprenderem a trabalhar bem juntas? Uma boa parte do time de tech da Joga foi junto com o Robinho para a Yalo. É difícil contratar, mas fazer times trabalharem bem leva tempo. Comprar uma equipe entrosada pode facilitar bastante o processo.

  4. Custo de oportunidade: quanto custa não estar investindo em X agora? Todo mundo já ouviu a história da Kodak que era líder em câmeras e deixou passar a oportunidade quando as fotos se digitalizaram. Para as empresas de tecnologia, não apostar em AI pode custar tempo, base de clientes, concorrentes se diferenciando, etc.

E o que isso tem a ver com você, empreendedor?

Tudo. Em qualquer venda, mas especialmente em um acquihire, o empreendedor precisa saber contar a história do CPF além do CNPJ. A maioria dos empreendedores tem um pitch do seu negócio, mas nem sempre sabe se vender.

O comprador quer entender:

  1. esse founder / time tem as competências que a gente acredita que precisa ter?

  2. o que faz dele um talento único?

  3. por que o time faz questão de estar com ele?

  4. ele tem capacidade de atrair mais talentos do mesmo naipe?

  5. nosso time (ou parte dele) teria vontade de trabalhar com ele?

  6. quão respeitado ele é pela comunidade / clientes / colaboradores / fornecedores?

O caso da Joga é um caso de um empreendedor e time super qualificados no tema mais quente do momento (AI). Tem skills que não se encontram fácil, e a trajetória do Robinho qualifica para que ele chegue como um “excelente candidato na entrevista de emprego”.

Para o comprador, usar M&A como ferramenta de talent acquisition tem uma série de vantagens adicionais além das já citadas. Além de tudo, empreendedores costumam trazer skills que a jornada empreendedora desenvolve de maneira singular (adaptabilidade, resiliência, saber operar na escassez, criatividade prática, etc).

Queremos explorar temas de startups e M&A que a mídia explora mal - quer sugerir algum? manda pra gente no [email protected]

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thedeallab #2

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