A vaga de estacionamento de milhões

Quem já precisou dirigir até o centro em véspera de Natal para comprar presente já viveu o problema da parada ótima. Você começa a chegar perto do destino e vê uma ou outra vaga que já poderia parar, mas pensa “ainda tá longe". À medida que você chega mais perto da loja que quer ir, não tem vaga. Você volta 2-3 quarteirões atrás daquela vaga e alguém já pegou. Você fica bravo, dá voltas e voltas e nesse meio tempo, as lojas fecharam. Antes você pensava que ia caminhar demais. Mas se arrependeu por insistir demais e vai ter que dizer em casa que o trenó do papai noel não achou vaga.

Agora troque "vaga" por "comprador para sua empresa". Quantas vezes já não vi essa história (e até pincelamos o tema na thedeallab #4). No meio do furacão, o dilema comum de qualquer processo estruturado de M&A: quando aceitar uma oferta vs quando continuar procurando ofertas melhores?

No último post, o Robinho explorou a Teoria da Parada Ótima e como ela se aplica às decisões de continuar ou encerrar um negócio. O método de explorar ~40% das opções para calibrar o nível e depois escolher a primeira que supera claramente tudo o que viu antes é modelo puro.

Vim tentar responder: a teoria é aplicável quando um fundador organiza um processo estruturado de M&A? O custo de parar cedo dói: você deixa dinheiro na mesa, perde alavancagem e talvez feche com quem não era o fit ideal. O custo de continuar pode ser até pior: cozinhar demais, queimar a refeição e perder o comprador. E diferente de candidatos em uma fila de processo seletivo, a fila de M&A é lenta, não padronizada (cada comprador tem seu processo), informações vazam e compradores desistem de você.

Então, como traduzir a elegância matemática da parada ótima para a "bagunça" de um dealroom? Como saber quando parar de expandir o topo do funil e "dobrar a aposta" no melhor prospect?

Este post é sobre isso. Vou te mostrar um framework prático para estruturar seu pipeline de compradores, definir critérios objetivos de decisão e aplicar a lógica da parada ótima ao mundo real de M&A — onde você não pode voltar no tempo, mas pode sim negociar com mais de um comprador ao mesmo tempo (até não poder mais).

Opcionalidade educa e fortalece ao mesmo tempo

Opcionalidade é poder (também em fundraising). Quando você tem cinco compradores qualificados olhando sua empresa, você …

.. aprende mais rápido. Cada conversa revela como o mercado valoriza seu negócio. Um comprador foca em entender sua base de clientes, outro sobre sua tecnologia e time, um terceiro sobre estratégia e seu posicionamento na indústria. Você aprende e monta o mapa do que importa.

… calibra valuation. Ter uma única opção na mesa é trabalhar no escuro. Com três ou quatro indicativos, você sabe se está no percentil 25 ou 75 da distribuição. Isso muda tudo na hora de negociar.

… ganha alavancagem. Ninguém quer perder um deal para o concorrente. A simples presença de outros interessados acelera decisões e melhora termos. Lei de oferta e demanda.

Mas opcionalidade tem custo. E ele cresce não-linearmente com o tempo.

Cada conversa consome energia. Cada comprador quer atenção, reuniões com o time executivo, acesso a dados. Você multiplica isso por seis, oito, dez prospects e de repente está passando 60% do tempo em calls que não avançam.

Processos muito longos geram sinais negativos. O mercado é pequeno. Se você está há muitos meses "falando com todo mundo" e ninguém colocou nenhuma oferta, compradores começam a desconfiar. Talvez tem algo que eu não vi, mas os outros viram e por isso não avançam. Também não vou avançar.

Diligência de qualidade exige foco. Quando um comprador coloca seu VP de Operações, CFO e head de produto para mergulhar nos seus números, ele quer "exclusividade emocional" (mesmo que não formal ainda).

A arte está em usar opcionalidade para aprender e calibrar, mas reconhecer rápido quem deve ser considerado para não diluir tempo / energia e não dar o devido feedback a potenciais compradores (separar sinal de ruído).

A parada ótima e o processo de quem está na ponta vendedora

2 momentos distinguem-se no pipeline em um processo de venda de uma empresa.

Fase 1 — Exploração e networking: Seu objetivo é mapear o território e conhecer os potenciais compradores. Quantos existem? Quais os fits estratégicos possíveis? Que ranges de valuation aparecem? Quais são rápidos, quais são lentos? Quem mais se alinha àquilo que eu / meus sócios valorizam.

Fase 2 — Seleção / deep dive: ao identificar os compradores que mais batem os critérios (fit estratégico superior, sponsor executivo forte, valuation competitivo, velocidade adequada), é hora de investir profundamente nesses relacionamentos.

Na prática, você não precisa descartar as outras opções completamente. Você reduz drasticamente o investimento de tempo nelas e as mantém como plano B, enquanto acelera quem é seu plano A.

Dividir os selecionados do resto deve refletir as etapas do seu funil

Em essência, um processo de venda de uma empresa não difere de uma venda B2B complexa. Logo, pode ser gerenciada como um funil de vendas, com critérios de qualificação de potenciais compradores e etapas com gatilhos claros para evolução (fica para um próximo post).

As etapas mais avançadas também são as mais densas / complexas. Certifique-se de que quem está avançando no funil são aqueles que você separa tempo / energia.

P.S.: Se ainda não leu o post do Robinho sobre Parada Ótima, vale cada minuto. É a base teórica para tudo que discutimos aqui, aplicada à decisão (muito mais difícil) de continuar ou parar um negócio.

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